
01/12/25
Tá Quente, Brasil!
O estudo proprietário do ecossistema FutureBrand chegou a sua segunda edição, mantendo a essência de mostrar o que tá em alta, tá em voga, tá trending no país.
A divergência já não aparece só em opinião ou comportamento político. Ela começa a organizar repertório, tecnologia, linguagem e visão de futuro.
09/03/26

A divergência já não aparece só em opinião ou comportamento político. Ela começa a organizar repertório, tecnologia, linguagem e visão de futuro. Quando isso acontece, a diferença deixa de ser apenas debate. Ela vira contexto.
Em 30 países, 59% da Gen Z dizem perceber tensão entre homens e mulheres em seu país. [1] O dado importa menos como termômetro de conflito e mais como sinal de distanciamento. Para uma geração que cresceu em meio a discursos sobre igualdade, autonomia e diversidade, o que emerge não é necessariamente convergência. Em muitos casos, é separação.
Na escuta qualitativa da FutureBrand, isso aparece de forma direta: “Às vezes eu olho pro lado e parece que a gente tá vivendo em países diferentes. As referências não batem, os medos não batem, o que a gente acha importante não bate.” [2] A fala sintetiza bem o momento. O que está em jogo não é apenas desacordo. É a formação de repertórios distintos.
No Brasil, esse afastamento aparece entre os jovens de forma clara. Segundo a pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente, da Fundação Friedrich Ebert, as mulheres tendem a se posicionar mais à esquerda e a defender agendas progressistas, enquanto os homens aparecem mais alinhados a valores conservadores. E esse padrão não é isolado: a pesquisa ouviu mais de 22 mil jovens em 14 países da América Latina e do Caribe, e a divergência entre jovens homens e mulheres se repete em escala regional. [2]
Isso muda bastante coisa. Porque diferenças ideológicas não ficam no campo abstrato dos valores. Elas reorganizam o que cada grupo considera desejável, legítimo e possível. Mudam a leitura sobre trabalho, risco, estabilidade, autonomia, família, poder e futuro. Quando essa distância cresce, não muda só o que as pessoas defendem. Muda o que elas perseguem.
E hoje essa distância já não é produzida apenas por escola, família ou religião. Ela é intensificada por ecossistemas digitais que expõem homens e mulheres a circuitos de atenção e socialização cada vez menos coincidentes.
No uso de IA generativa, por exemplo, os homens aparecem à frente. Um working paper do Bank for International Settlements mostrou que 50% dos homens disseram ter usado IA generativa nos últimos 12 meses, contra 37% das mulheres. [3] Em paralelo, os circuitos de mídia também se separam. Em análise da Ipsos iris com o público de 15 a 24 anos, mulheres jovens passam mais tempo no TikTok, enquanto homens passam mais tempo no YouTube. [4]
Não é só uma diferença de plataforma. É uma diferença de ambiente, linguagem, estímulo e modelo de influência, o algoritmo e repertório já não são os mesmos entre os gêneros.
E talvez seja esse o ponto mais importante para marcas. O problema não é apenas que homens e mulheres discordam mais. É que eles estão sendo formados por circuitos culturais, informacionais e tecnológicos diferentes. Dois feeds. Duas gramáticas. Duas ideias de progresso. Dois modos de aprender a habitar o mundo.
Durante anos, foi conveniente tratar “os jovens” como um bloco relativamente coeso. Mas essa leitura começa a perder valor quando gênero deixa de ser apenas um recorte demográfico e passa a reorganizar visão de mundo, comportamento político, adoção tecnológica e dieta midiática. Nesse contexto, falar com a juventude como se ela partilhasse os mesmos códigos, referências e tensões distorce o problema.
É por isso que o case de Tinder ajuda a avançar essa discussão. Em The Green Flags Study, a marca parte de uma constatação relevante: homens e mulheres podem não estar tão distantes no que buscam, mas continuam presos ao que presumem sobre o desejo do outro. Ao nomear esse ruído como uma “Assumptions Epidemic”, Tinder faz um deslocamento importante. Em vez de tratar a diferença entre os gêneros como um impasse em si, reposiciona o problema na forma como esses repertórios se leem, ou se leem mal.[5]
A questão, então, não é só como representar homens e mulheres. É entender o que acontece quando eles começam a construir futuro com referências, ferramentas e expectativas que já não se encontram no mesmo lugar.
Quando o ponto de partida já é paralelo, que futuro pode ser construído em comum?
Fontes:
[1] Ipsos + King’s College London.
[2] Pesquisa Qualitativa FutureBrand
[3] Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil).
[4] Bank for International Settlements. / Ipsos iris.
[5] Tinder press room