
01/12/25
Tá Quente, Brasil!
O estudo proprietário do ecossistema FutureBrand chegou a sua segunda edição, mantendo a essência de mostrar o que tá em alta, tá em voga, tá trending no país.
A volta do cigarro não parece ser só um retorno de consumo, mas uma readaptação cultural.
09/04/26

A volta do cigarro não parece ser só um retorno de consumo, mas uma readaptação cultural. No Brasil, 29,6% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico em 2024, ante 16,8% em 2019 - alta de 76% em cinco anos [1]. Entre adultos das capitais, a proporção de fumantes passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em um ano e a primeira alta em duas décadas [2]. Em 2025, a própria OMS escolheu como tema do Dia Mundial Sem Tabaco a ideia de “desmascarar o apelo” desses produtos, justamente para chamar atenção às estratégias que os tornam novamente desejáveis [3] (Agência de Notícias - IBGE).
O ponto, portanto, não é apenas que o cigarro voltou. É como ele voltou. Menos como rebeldia, mais como ferramenta social e solução improvisada para três tensões muito contemporâneas: a pressão pela magreza, o esgotamento ansioso e a dificuldade de socializar em um cotidiano mediado por telas. Essa volta não fala só de nicotina mas sua função cultural (Organização Mundial da Saúde).
Magreza: O controle do corpo
Em uma cultura que continua tratando contenção como virtude, a nicotina reaparece como uma tecnologia informal de controle. Harvard resume isso de forma direta: a nicotina atua como supressora de apetite [4]. O que retorna, então, não é apenas o produto, mas a velha fantasia de que é possível administrar fome, desejo e corpo por meio de um gesto pequeno, repetível e portátil. Quando a magreza extrema volta a circular como ideal visual, o cigarro reencontra um lugar funcional dentro dessa lógica. (Harvard Health)
É isso que torna o fenômeno mais inquietante. O cigarro não precisa mais ser defendido para ser reintegrado. Basta voltar a parecer útil. Em vez de promessa de prazer, ele reaparece como promessa de disciplina.
Ansiedade: O alívio emocional
A segunda frente é emocional. Fumar ainda é percebido como um recurso para lidar com tensão, estresse e desconforto. O gesto cria uma pausa, ocupa as mãos e organiza o corpo por alguns minutos.
No vape, isso aparece de forma ainda mais clara. Entre estudantes, sentir-se ansioso, estressado ou deprimido está entre os principais motivos ligados ao uso atual de cigarro eletrônico. Por isso, o hábito volta a circular menos como excesso e mais como apoio.
Social: fumar oferece uma pausa e um momento de sociabilização fora das telas
A terceira frente é social. Em um cotidiano onde quase tudo acontece por interface, fumar ainda cria uma das poucas pausas fisicamente compartilhadas que restam. Ele organiza a ida para fora, a conversa lateral, o silêncio menos constrangedor, o pequeno ritual de pertencimento, importante em tempos de fobia social difusa e hiperconsciência de si. Pesquisas sobre social smoking reforçam que fatores sociais continuam centrais para a iniciação e a manutenção do hábito, e que o ato de fumar em grupo não é só o contexto: é parte da experiência [5]. (Springer Nature Link)
Quando o risco permanece, mas a imagem muda
Esse retorno funcional também é visual. Um relatório da Truth Initiative mostrou que 51% dos 152 filmes de maior bilheteria lançados em 2024 continham imagens de tabaco, acima dos 41% de 2023 [6]. E um artigo publicado em 2025 na Tobacco Control descreve a ascensão dos “cigfluencers”: perfis, celebridades e influenciadores que voltam a glamourizar o ato de fumar nas redes [7] (Truth Initiative).
SKYLRK e a transformação do fumar em acessório cotidiano
Um case relacionado a nova acensão dessa cultura, foi em 2025, com o protótipo de capinha de celular da SKYLRK, marca de Justin Bieber. Em 13 de maio de 2025, Bieber mostrou uma phone case com um encaixe moldado para carregar um baseado; menos de dois meses depois, em 10 de julho, a marca foi oficialmente lançada [8]. Quando o fumável cabe na capinha do celular, ele deixa de ser apenas um acessório e passa a funcionar como uma extensão da identidade, do design e da imagem pessoal. Não é o retorno do tabagismo clássico, é a integração do repertório do fumar à estética da vida atual (GQ).
Case 2: Vuse x McLaren e a transformação da nicotina em objeto de performance
Se a SKYLRK mostra o fumar virando acessório, a Vuse mostra a nicotina virando plataforma de lifestyle. Um estudo publicado em 2025 analisou a conta global da marca no Instagram e concluiu que a Vuse utilizou técnicas de marketing estilizadas e colaborações com Fórmula 1, festivais de música e influenciadores, para ampliar o alcance e posicionar a marca dentro da cultura jovem [9]. Em paralelo, a própria marca colocou no ar o vape Vuse Ultra x McLaren Limited Edition, um dispositivo descrito como edição limitada, com acabamento cromado, Bluetooth, carregador sem fio e baterias em “papaya orange” [10].
Quando um produto nocivo volta a ganhar espaço, a leitura mais útil não é moral, é comportamental . O cigarro reaparece porque continua oferecendo três coisas que a cultura atual demanda desesperadamente: controle, alívio e vínculo. Enquanto essas três funções seguirem mal resolvidas, produtos assim continuarão encontrando maneiras de parecer úteis, bonitos e socialmente integráveis (Harvard Health).
Se o cigarro já faz parte do kit de sobrevivência social do momento. O que mais precisamos normalizar para continuar convivendo?
* A FutureBrand não apoia ou incentiva o uso de cigarro, nicotina ou tabaco. O consumo desses produtos é prejudicial à saúde.
Fontes:
[1] IBGE
[2] Agência Brasil / Ministério da Saúde
[3] WHO
[4] Harvard Health
[5] Springer
[6] Truth Initiative / NORC
[7] BMJ
[8] GQ
[9] University of Auckland